• Frase da Semana :
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  • Ao final, não esperem uma verdade absoluta, pois terei que infelizmente lhes informar que não há. - Amanda Lemos -

sábado, 18 de junho de 2011

Os dias anormais de verão, - Parte 2 -


ALICE POSSUI EXATA uma semana para se decidir, ariscar-se ou não ?
Embora tudo aquilo que fugisse de seu itinerário incessante fosse algo que lhe surpreendesse, 
Embora o estranho sempre lhe chamasse a atenção e lhe causasse estranha felicidade, arriscar-se era sobretudo arriscado, inseguro, sem volta, e sem conseqüências pré determinadas.

Alice já se esquecera o que era relacionar-se, arranjar um namorado, flertes ao acaso. Admitia que a vida de solteira, sozinha e universitária era complicada e sem tempo para quesitos amorosos. 

Sentia saudade até dos cafés pela manhã de discussões de livros e temas medicinais, embora seus antigos namorados se quer detinham conhecimento básico gramatical, com exceção de  um, Adam. 
Músico, tenista e quem diria bonito nos moldes de Alice. 
Mas já fizera muito tempo que perderam o contato, relacionamento de três meses apenas.

Ao mesmo tempo de inseguranças e dúvidas, Alice via que se não o fizesse sua vida continuaria passando num piscar de olhos sem lembranças emotivas de um passado não vivido. 
Já se aproximara dos 21, e tinha necessidade de arriscar-se ao menos uma vez para sentir o sabor do que seria atirar-se de um arranha- céus sem pára-quedas, 
Doce ilusão de uma Alice monótona.

Sim, pretendia aceitar o convite de Benjamin, depois é claro de pensar cerca de 168 horas no assunto, a semana inteira diga-se de passagem, para quem não se  sentir a vontade de levantar-se da poltrona e realizar este cálculo em uma calculadora mais próxima.

Deixe por estar.

A decisão estaria tomada, aceitar. 
Uma vez na vida teria que dizer um “sim” para a sorte e quem dirá ao acaso.



A semana de aminoácidos, hemácias , glóbulos, ossos e músculos passaram rápido.
Os patos estavam sedentos de fome e esperando o sábado de sol, as tortas de limão já preparavam-se para sair dos fornos e o café já “borbulhava” na cafeteira.

A sexta tão esperada chegou, 
A faculdade pela manhã até as 17:00 passou rápida aos olhos de Alice que ia às pressas ao Donnuts para encontrar Benjamin .


- Ora, vejam só quem chegou, adiantada por sinal, a senhorita da torta de limão e do café extra- forte...;
Tomei até a liberdade de adiantar seu pedido Alice, e te acompanhar no cardápio, posso ?

- Claro Benjamin, como está ? 
Gosto de ser pontual em minhas obrigações.

- Muito melhor agora,
Obrigação ? Por favor, quero que hoje você fuja da rotina , e acho bom comermos depressa antes que chova e fique difícil chegar no meu santuário. (risos)

- Santuário ?
Comemos no caminho.

- Sim, meu ponto de inspirações, se é que me restaram alguma.
Como de certa forma, é meio longe, vim de carro.
Pegue a torta e vamos.

Pegada a torta se dirigiram ao carro de Benjamin para irem a seu “santuário” nesse dia nublado que já se aproximara do verão.


No caminho:

- Alice, como foi seu dia hoje ?
Muitos testes da faculdade ?

- Nem tanto, mais aula teórica e analítica.

Chegando, Alice estranha o local, além de longe era um armazém abandonado, mas de fora parecia confortável, calmo. 
Porém, ainda estranho.

- É este seu santuário ? Um armazém ?

- Mocinha, sim, é este.
É porque você não viu dentro ainda, deixe-me mostrar.




Era lindo, organizado, modesto, como uma casa abandonada mas em uso contínuo.




- Você mora aqui Benjamin ?

- Não não, moro com meu  pai.
Mas acredite estar aqui é mais aprazível que em um ambiente sufocante e de brigas repentinas com um tirano a ferro e fogo mas que se diz diplomata como meu pai.
Mas isso não vem ao caso,
 gostou ?

- Claro, é lindo, bem mais bonito visto de dentro.
Tem tudo que uma casa tem.
Cama, mini-cozinha, livros, discos de John Lennon, Paul McCartney, Amadeus Mozart, Beatles, pianista Alfred Brendel, Debussy...
E quem dirá um piano.. Claro !
Realmente você me surpreende muito Benjamin.

- Fico admirado no seu julgamento antes de si dispor a ler o livro por inteiro.
A casa é modesta, fica mais bonita no veranum.
O piano que a deixa bonita.
Uma verdadeira relíquia , piano de cauda, com cordas percutidas e batentes de feltro.
E estes discos são de gênios da música.. Nunca saem da vitrine dos bons ouvintes. 
Um cara culto, não ? ( risos)

- Me surpreendo com seu convencimento também.
Gosto dos Beatles, tem como não gostar ?
Veranum?




- “...Yesterday,
Love was such an easy  game to play
Now I need a place to hide away 
Oh, I believe in yesterday”

 Não, definitivamente, não tem como não gostar.; .
Veranum é verão em latim.
Não sou convencido, sou verdadeiro. (risos).

Desde criança meu pai teve a lúcida vontade de criar um protótipo de filho perfeito.
Me obrigando a freqüentar aulas de latim, piano e a suportar maratonas cansativas, digo, me obrigando a correr com ele nas manhãs gélidas dos fins de semana.
Cresci assim, subordinado a boa música e a “boa sociedade”.
Hoje, vejo que isso pouco me vale, ter crescido em berço esplêndido de ouro.


- “ Oh, I believe in yesterday !”
(risos)
Eles são ótimos, sem discussão.

Não imaginava sua infância desta maneira,.
Então somos dois subordinados às tradições familiares, eu com minha mãe realista até demais, e por vezes fria e meticulosa e você com seu pai possessivo e tirano.
(risos)
Casal perfeito ! 
Seu pai e minha mãe, claro.



- Até que não seria má idéia, tirando o fato de sua mãe ser casada e meu pai ter esquecido o que é gostar ou ser gostado,.
Felizmente, esse tipo de atitude não se passa por genética.
(risos)



- Posso ?

Alice chegando próximo ao piano, senta-se e se permite a tentar algumas notas, fazendo com que Benjamin disponha-se e chegue mais próximo também, sentando ao seu lado e tocando suavemente algumas notas, compondo uma melodia perfeita.


Alice ouvia a música em perfeita sintonia, como se mesmo apenas ouvindo se sentisse tocando. 
Seus dedos  no teclado deslizando- se em harmonia.
Já sabia que naquele exato instante Benjamin não só a atraia por seu jeito de dar a cara a tapa a tudo que a vida lhe prepusesse como tocava tão lindamente que Alice não queria jamais parar de ouvir.

O som eclodia em seus ouvidos e ao mesmo tempo seu coração ficava leve, amparado. 
Esquecendo de qualquer rotina cansativa, monótona.
Descobrira agora seu fascínio por piano, sem ao menos saber manejá-lo.

 Não precisava,
 Encontrara alguém que perfeitamente o faria e para ela isso já bastava.


- Para Elisa   - Wolfgang Amadeus Mozart.
Esplêndido não é ?
Quando criança, dormia ouvindo essa música e jurei aprender a tocá-la um dia.
Um dos  meus sonhos realizados.


- Magnífico Benjamin, simplesmente encantadora a música.
Toque outra, por favor.

- Uma mais agitada dessa vez Alice, 
Por que não Petit Suite  de Claude Debussy ?



Benjamin tocava como se brincasse com os dedos, sem um mínimo de dificuldade.
Era esplêndido.
Tocava de modo tão leve, básico e harmonioso mestres da música como Mozart, Debussy, Brendel.. como se convivesse intimamente com eles, dialogando com gênios e explorando notas musicais perfeitas.



- Toca tão bem Benjamin, deve treinar o dia inteiro ...;


- Seria bom se tempo eu tivesse para isso, 
E também aos 23, seria estranho se não o fizesse bem.
Embora tenha entrado a mando de meu pai na música aprendi na prática a gostar e venerar clássicos. 
Força do hábito.

Debussy é um dos meus favoritos, um francês que de tão importante na música deu nome de Debussy a uma cratera do planeta de Mercúrio.
(risos)

Ele me faz pensar que o difícil pode se tronar fácil para quem faz o que gosta e se admira em fazer, no meu caso tocar piano e escrever.



- E não deve parar nunca Benjamin, me encanta como você toca bem.
Acho que gostei tanto de ouvir talvez pelo fato de sempre achar magníficas as melodias do piano, mas quase nunca ter a oportunidade de ouvir alguém tocando-as de perto. 
Só pelos discos de minha mãe, quando essa ouvia nas noites de domingo, especialmente no natal.

Confesso que quando criança, como só ouvia pelo rádio achava que tais músicas ou orquestras eram inventadas e que não havia ser humano sequer que pudesse realizar algo tão bonito e maravilhoso aos nossos ouvidos.
Era como inventar o que não pudesse ser inventado.
Colocar em prática o impossível.


- O impossível é tão bonito que o possível já se tornou pouco demais aos meus olhos não é verdade ?

Alice, você deve está faminta, se não está, eu estou.
Afinal, você comeu a torta sozinha não é senhorita ?
E eu lhe proponho a honra então de experimentar a única coisa da qual lido bem na cozinha..., 
espaguete !
E que modéstia parte, o meu atrai até anjos de tão saboroso que é.
À bolonhesa, meu favorito.


- Acho que devemos deixar para outro dia Benjamin, está ficando tarde.
Tenho muita coisa a fazer ainda.

- Alice, vai sozinha por acaso para pegar uma pneumonia ? Pois vejo que as gotas da chuva já começaram a cair e devem estar tão geladas que não me atrevo a sair daqui agora. 
Não mesmo.
E fazer o que em sua casa ? As mesmas coisas das quais passa a vida inteira fazendo ?
Repito. Não mesmo !
Você veio comigo , e já se arriscou até por pensar em vir.
Entrou na chuva , então é para se molhar.

- (risos)... Ah, claro !
Com você a gente pega até um resfriado Benjamin.

- Pois então, fique para o espaguete e prometo que te levo em casa, sem primeiras ou se quer segundas intenções, prometo.

- Está bem, como você me pede de joelhos para ficar, eu fico. (risos)
Mas desde que façamos um acordo.
Como eu já conheci seu “santuário”, queria lhe convidar para amanhã, eu lhe mostrar o meu, ou melhor, um lugar que às vezes visito e que me sinto bem de estar.
Acordo feito ?

- Acordo feito Alice, 
De joelhos ?
Depois o convencimento é que parte de mim.
Pois bem,..
Mãos à obra com a comida italiana dos Deuses !
(risos)


Benjamin com a ajuda de Alice passam a preparar espaguete à bolonhesa, um dos pratos prediletos deste escritor/pianista modesto.
Comeram dando milhares de risadas, conversaram sobre livros, filmes prediletos, os primeiros namoros do colegial, as músicas que ouviam, idealizaram sonhos de criança e riram das mancadas de seus pais.

A conversa fluía bem, como o tempo também passava depressa.
Minutos se tornaram horas e Alice já entrava no carro de volta para casa, se encantando com a anormalidade desse dia e estando feliz por redescobrir o que seria novamente construir uma amizade com um rapaz, já que muitos diziam ser impossível amizade entre um homem e uma mulher, afinal, diziam sempre haver intenções por debaixo do tapete.

Alice provava que este pensamento era incerto, pelo o menos, por enquanto.



Continua...


Texto de Amanda Lemos




21 comentários:

Tatiane Lemos disse...

Querida, adorei teu blog, obrigado pela visita, pode voltar sempre!


Beijo, boa semana

helio.rocca disse...

Creio que a juventude seja assim mesmo: plena de conflitos. Seu texto é muito interessante e está muito bem escrito. Parabéns!

Julianna Alves disse...

mais que texto lindo! a citação de yesterday e ainda uma personagem chamada alice, é pra me ganhar num estalo (:
adorei por aqui, viu?!
obrigada pelo comentário e sim, adoro ver que a blogosfera não morre, mesmo porque (vejo que vc tem o blog tb ha um tempinho) eu também escrevo há tempos e não queria que acabassse :/
beijinhos

A Fratura Exposta da Palavra! disse...

Bacana o texto, até mesmo pq pra comentá-lo temos que lê-lo todinho...
(risos)
Entretanto escreve muito bem!
Vou ficar a espera pela continuação.
Um grande abraço!

Heloísa Paço disse...

Nossa, adorei seu blog! Adorei seus textos! Voltarei sempre aqui, estou seguindo :)

bejus, Heloísa Paço.
[http://heloisapaco.blogspot.com/]

Cris . disse...

não li o post, mas prometo voltar e ler :)
passei um bom tempo longe da blogosfera, to voltando aos pouquinhos, tentando reconquistar tudo aquilo que joguei pro ar.
adorei seu Blog e prometo ta sempre por aki. ;D

abraço meu. *---*

Andressa Huggler disse...

oieee, td bem? adorei a visita, volte sempre!
seu blog tb é lindo, vou ler com mais calma qlqr hora. :)

beijao!

thayanne teixeira disse...

Meu bem, muitíssimo obrigado pelo comentário.
Seus textos está muito bom, apesar d eu ter lido só a metade dele
mais eu gostei do seu conteudo, mesmo.
um abraço, pode deixar que eu volto sempre ;)

Cadinho RoCo disse...

Um espaguete à bolonhesa merece ser apreciado com todo requinte.
Cadinho RoCo

Um brasileiro disse...

oi. tudo blz? estive por aqui. muito legal. gostei. apareça por la. aproveite e vote em mim para os links top do lado direito. agradeço desde ja. abraços.

Franciellen :) disse...

Que linda! Uma história nova na blogosfera que parece mt boa :) vou acompanhar :*

garoto cientista disse...

Olá, passando para dizer que adorei tua vizita, adorei teu espaço, muito fofo, muito meigo, parabéns pela originalidade. Abraços.

Malú Nunes disse...

Adorei seu espaço tb! Voltarei sempre :) Beijos, tô seguindo.

Roberta Mendes disse...

Uma história de fôlego, bem estruturada e de tirar o fôlego pelo talento que revela.

Acompanho com prazer.

♥ Luciana Mira ♥ disse...

EU vim agradecer sua visita ao meu blog e vim também conhecer seu adorável cantinho e já estou seguindo... bjinhos!

Nina Blue disse...

Muito bacana o seu blog...
Voltarei sempre!
Obrigada pela visita ao Das verlieren!

- LorennaLopes disse...

adorei teu blog.
deixa eu te explicar uma coisa: o meu blog sao os melhores textos, frases, trechos que eu gosto. Entao eu divulgo o texto e o nome do autor como marcador. Eu queria te perguntar se, se eu gostar de algo por aqui, se eu posso reblogar la no meu blog. Prometo que coloco seu nome como marcador. É uma forma de divulgação até.

Ah, estou te seguindo.

Paulo Roberto Wovst Leite disse...

Oi Amanda!
Obrigado pela visita e pelas palavras, teu blog é muito bacana, gostei, sigo por aqui.

Abraços,
Paulo.

Ph disse...

Olá, obrigado pela visita em meu blog, admirei o seu também.
Abraços

meuspensamentos disse...

Lindaaa ameii seu blog ta tudoo lindoo !! aaah adorei sua visita no meu tbm Tô te seguindoo e seja bem vinda no meuu blog Xerooo

De S c a r p i n disse...

Você escreve tão bem floor *-*
Em breve voltareii, grande beeijo'

Nosso Livro Publicado !

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Aqui não se conta tudo, porque o tudo é um oco, é um nada. Se conta somente, e o somente não necessita de explicação.

Amanda Lemos